O que significa implementar educação ambiental (EA) em escolas ? Quais são os objetivos a serem buscados e, a partir daí, qual deve ser a metodologia utilizada ?

Embora no Brasil a educação ambiental tenha sofrido um “boom” nos anos 90 (Reigota, 1998), existe ainda uma escassez de periódicos que faz com que a documentação de projetos de EA se encontre em um estágio inicial, com conseqüente perda de experiências importantes ou sua limitação às regiões onde ocorrem (Pádua e Tabanez, 1997).

Dentro deste contexto, o objetivo principal deste trabalho é o de divulgar idéias e contribuir na discussão em relação à implementação da EA em escolas, através de uma reflexão em torno da metodologia de sua implementação. Não é de nossa intenção, no entanto, produzir uma ‘receita’ ou ainda considerar que nossa proposta seja ‘a correta’ ou a única possível, mas entendemos aqui que seus fundamentos devam ser observados.

Nossa discussão em torno da metodologia de implementação da EA em escolas será toda embasada nos próprios princípios da EA, pois acreditamos que, na busca da transição para um novo paradigma, que eles devam ser exercitados já no processo de implementação, e não apenas nas práticas posteriores. Ao fazermos isso, estaremos não só sendo coerentes com nosso discurso, mas também promovendo desde já uma ruptura, mesmo que pequena, com o paradigma atual.

Aqui neste trabalho acreditamos que os fins não devam justificar os meios, no sentido de que qualquer metodologia de implementação possa servir desde que traga bons resultados, mas que o próprio processo de implementação deva ser um processo de aprendizado fundamentado pelos princípios que depois irá propor.

Para tal, partiremos dos princípios gerais da EA, que neste trabalho definimos brevemente como sendo uma abordagem educacional que visa uma mudança de paradigmas rumo ao do desenvolvimento sustentável. Os princípios norteadores serão aqui representados pelos Princípios da Educação para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, presente no Tratado das ONGs confeccionado pelo Fórum Internacional de Organizações Não Governamentais e Movimentos Sociais (Sem data- ver anexo). Mais especificamente, estaremos enfatizando alguns valores como cooperação, igualdade de direitos, autonomia, democracia e participação, que permeiam os princípios, e como Crespo (1998) coloca, “devem estar presentes em uma educação orientada para a sustentabilidade”. Bem, então, o quê significa a implementação da EA em escolas ?

Conseguimos reconhecer até o momento dois objetivos diferentes, porém intrinsecamente ligados e complementares, para projetos de implementação da EA em escolas: a) o primeiro deles se refere à escola como uma unidade impactante, ou seja, uma instituição inserida dentro de um contexto maior e que como qualquer outra contribui para a manutenção e até crescimento dos problemas ambientais de uma cidade, seja pelo lixo que gera, pelo esgoto, consumo de energia e água, etc; b) o segundo se refere à escola ou à educação fornecida pela escola, como perpetuadora e multiplicadora de uma cultura que é predatória ao meio ambiente, seja simplesmente pelo fato de desconsiderar sua existência (Grün, 2000) ou ainda por ser baseada em certos pressupostos com relação à natureza e à natureza humana que hoje são anacrônicos (Palmer, 1998), e que a fazem ser considerada “tanto parte do problema quanto da solução” (Sterling, 1996).

Reconhecido o cenário, poderemos então pensar em uma estratégia de implementação da EA utilizando uma visão ampliada e que aborde estes dois aspectos em conjunto, ou seja, a questão mais óbvia dos aspectos curriculares da escola, de como e por qual série, disciplina ou professor ser abordada, e também a tarefa prática de transformar a escola, de uma unidade impactante para uma unidade que passe a contribuir com a redução dos problemas ambientais de sua cidade, ao lidar com sua parte dentro de tais problemas (é por isso que aqui neste trabalho enfocamos ‘a implementação da EA em escolas’ e não ‘a implementação da EA no ensino formal’, por entendermos que o assunto extrapola a questão curricular). Desta forma, a escola não seria apenas um agente de mudanças, mas um agente e também um objeto de mudanças (Sterling, 1996). Os benefícios desta abordagem seriam vários, mas dentro deles citaremos dois bem definidos:

O primeiro deles o fato de, se o objetivo maior da EA é o de promover uma mudança de comportamentos que contribua na transição para o desenvolvimento sustentável, que estes novos comportamentos sejam desenvolvidos e exercitados no ambiente imediato que é a escola, não em situações de simulação mas em situações reais, onde as mais diversas variáveis e conflitos apareçam e tenham que ser trabalhadas em uma atividade democrática, progressiva e dinâmica, fundamentada pela práxis, e que resulte na real redução dos impactos causados pela escola. A grande idéia por trás disso é que a EA seja “incorporada nas políticas e programas da educação formal de maneira planejada e estratégica…”, e não que fique “dependente do compromisso ou entusiasmo individual” (Palmer, 1998). Nossa proposta de metodologia para tal será melhor discutida abaixo.

O segundo benefício está na congruência entre o discurso feito na abordagem curricular da EA, ou seja, o que ocorre dentro da sala de aula e aquilo que é experienciado pelas crianças e também pelos professores na escola (Huckle, 1995).

Fonte: REMEA

About these ads